Ciência para o Sínodo

O fundador e presidente do ABC, Dr. Thomas E. Lovejoy, juntamente com o Dr. Virgilio Viana e Emma Torres, elaboraram um documento de base sobre a ciência dos impactos e conseqüências do desmatamento e das mudanças climáticas na floresta amazônica, antes de um reunião do Sínodo dos Bispos para a região Pan-Amazônica no Vaticano, em Roma, prevista para 6 a 27 de outubro de 2019.

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Ciência para o Sínodo
Thomas E. Lovejoy, Virgilio Viana e Emma Torres

2019 Setembro

 

1.    Amazônia: Biodiversidade Única, Sistema Hidrológico de Significância Global, Regional e Nacional.

O ciclo Hidrológico

    Na década de 1970, o cientista brasileiro Eneas Salati examinou radio isótopos de oxigênio em águas pluviais amostradas do estuário amazônico até a fronteira peruana. Os resultados demonstraram inequivocamente que a Amazônia gerava internamente dentro da Bacia Amazônica cerca de metade da própria pluviosidade, reciclando a umidade cinco ou seis vezes enquanto a massa de ar se desloca do Atlântico para os Andes.

    Este foi um resultado devastador para um velho paradigma. Anteriormente considerava-se incontestável que a vegetação era simplesmente uma consequência do clima e que por sua vez não o influenciava.

    Tal sistema funciona dessa maneira por causa das estruturas complexas da própria floresta tropical amazônica. Quando a umidade chega primeiramente do Oceano Atlântico tropical, condensa e precipita como chuva, aproximadamente 75% da umidade retorna à massa de ar que se move para o Oeste através da evaporação de estruturas complexas da floresta, assim como, da evapotranspiração da vegetação. Em áreas desmatadas, a maior parte da umidade sai do sistema como enxurrada e assim não fica eficientemente disponível para voltar para o ciclo hidrológico através do deslocamento da massa de ar rumo ao Oeste.

    Isso inevitavelmente levou alguns de nós a querer saber o quanto o desmatamento poderia alterar o ciclo hidrológico, chegando a degradá-lo ao ponto que haveria chuvas insuficientes para propiciar a existência de uma floresta tropical (cerca de 2500 mm/ano). Em 2007, Gilvan Sampaio em associação com Carlos Nobre e outros tentaram modelar onde esse ponto poderia ser. Na ocasião, não foi possível obter um resultado preciso e irrefutável, mas os resultados da pesquisa apontaram para algum lugar ao redor de 40% de desmatamento. Nesse ponto a umidade insuficiente para suportar uma floresta tropical alcançaria o Leste, o Sul e a Amazônia Central e converteria tais regiões em savana.

    Os modelos climáticos iniciais também projetaram um declínio florestal da Amazônia ao Sul e Leste da região. Isso não se confirmou em alguns modelos subsequentes, mas deixou claro que mudanças climáticas poderiam afetar o sistema como um todo.
Mais recentemente, o uso contínuo e extensivo de fogo claramente desempenha um importante papel. Uma consequência do uso do fogo frequente para queimar a floresta derrubada ou remover a vegetação de colheita anteriores mostra claramente que o fogo tende a afetar áreas florestais adjacentes, dessecando-as e tornando-as vulneráveis às incursões pelo fogo em anos subsequentes.

    Neste ponto, o desmatamento, o uso extensivo de fogo e as mudanças climáticas interagem em uma sinergia negativa que levou Lovejoy e Nobre a concluir que tal interação moveu o ponto de inflexão mais perto de 20-25% de desmatamento. Na verdade, eles concluíram que as secas sem precedentes de 2005, 2010 e 2015/16 são primeiros sinais marcantes do ponto de inflexão.

    A mensagem geral a ser derivada disso é que a Amazônia deve ser gerida como o sistema que claramente é: para evitar a perda irreparável de vegetação e da biodiversidade, para salvaguardar a enorme quantidade de carbono e biodiversidade presentes nessas florestas e o bem-estar das pessoas que vivem e dependem da floresta e seus recursos. A Amazônia também está intimamente entrelaçada com o sistema climático sul-americano, que para manter suas características deve contar também com um sistema amazônico sadio.

2.    O sistema do Rio Amazonas: dos Andes ao Oceano Atlântico

    Quando a massa de ar atinge os Andes, move-se para cima, arrefece quase toda a umidade que está carregando, a condensa e precipita como chuva – em tal quantidade que produz 20% da água doce do mundo que é o sistema fluvial do Rio Amazonas. Durante os meses de cheia (que variam em duração entre o Leste e Oeste da Amazônia), a Amazônia e seus afluentes saem do leito e inundam florestas ciliares por meses a cada ano. A extensão dessas florestas alagadas é tão grande que, juntamente com os próprios rios, constituem 20% da Bacia Amazônica.

    O ciclo anual prevê um "pulso" de inundação. Em águas baixas, terrenos na beira dos rios que receberam sedimentos férteis durante a última cheia, acolhem práticas milenares agrícolas que dá sustento para comunidades ribeirinhas, antes que novamente tais terrenos sejam inundados com a próxima inundação. Há também muitas espécies de peixes que migram periodicamente para a floresta alagada em busca de sustento. Essas florestas e peixes precisam ser geridos de forma sustentável pelas comunidades locais, as quais são compostas por pessoas capazes para fazê-lo quando a autonomia está assegurada.

    Outros peixes também importantes incluem grandes espécies de bagres com ciclos de vida que abrangem a migração do estuário até as cabeceiras dos grandes rios. Barragens hidrelétricas mal projetadas bloqueiam essas migrações e impedem o fluxo anual de sedimentos dos Andes, que são importantes para a agricultura. Ao menos, a construção de barragens com turbinas “tipo bulbo” apresenta menor impacto e pode ser considerada de alguma forma uma infraestrutura sustentável.

    No entanto, a infraestrutura convencional levou a uma grande destruição e impactos ambientais não intencionais sobre os povos indígenas e outros povos tradicionais da Amazônia. É preciso repensar seriamente os projetos de desenvolvimento para a Amazônia, incluindo um novo reconhecimento do valor dos rios para o transporte, a agricultura baseada no pulso de inundação e a pesca.

3.    Superpotência da Biodiversidade: bioeconomia e motor para o desenvolvimento sustentável

    A Amazônia é, naturalmente, o maior repositório mundial de biodiversidade terrestre (incluindo a sua biodiversidade de água doce) e já deu ao mundo borracha, mandioca, chocolate (cacau), curare (usado como um relaxante muscular em cirurgia abdominal de grande porte) e inibidores da ECA (enzima conversora de angiotensina), na qual centenas de milhões de pessoas em todo o mundo usam para controlar sua hipertensão e muito mais.

    Cada uma das multiplicidades das espécies representa um conjunto de soluções para um conjunto de problemas biológicos – qualquer um dos quais tem potencial para mudar as ciências biológicas ou ser a fonte de uma economia sustentável. O conhecimento indígena e local é sempre um lugar óbvio para começar.

    Há uma grande oportunidade de aproveitar a ciência moderna, o conhecimento local e as habilidades empreendedoras para desenvolver indústrias baseadas em recursos florestais. Esse potencial é reconhecido em sua visão mais recente de Carlos Nobre e discussões de uma possível Escola Amazônica de Negócios, com uma base em diversidade cultural.

    Pensamos que é justo dizer que muito do modo como a economia tem sido utilizada não foi nem ponderado e nem bem-sucedido. Não sabemos de uma análise verdadeiramente bem pensada que vai além do convencional para entender o valor da Amazônia como um sistema em termos econômicos. Praticamente nenhum projeto de infraestrutura nunca ultrapassou o custo da construção, para olhar para a manutenção, ou estimou os custos socioeconômicos da "mentalidade da corrida do ouro", que muitas vezes segue, ao favorecimento do tráfico de drogas, ou os imprevistos refugiados que aproveitam uma estrada fronteiriça já existente. Qual é o custo real das atividades ilegais dos garimpos que proliferam e raramente trazem aos garimpeiros nada mais do que doenças, problemas sociais em troca de não mais do que o dobro de sua renda normal?

    Em contraste, experimentos em desenvolvimento sustentável estão confinados a algumas poucas comunidades, por exemplo, a reserva de desenvolvimento sustentável Rio Negro da FAS em Tumbiras ou aos esforços da Alcoa na mina e nas comunidades de Juriti para promover uma sustentabilidade a longo prazo.

    O que poderia ser um modelo para uma cidade amazônica sustentável que, como Manaus, é composta principalmente de atividades econômicas que não estão voltadas para a uso dos recursos naturais (fábricas de montagem nesse caso)?

    Estas são questões vitais para os povos indígenas e outros habitantes tradicionais da Amazônia.